Evangélicos e Ética no Brasil.
A ética evangélica tem uma característica marcante que é a baseada na moralidade pessoal. Valores centrados em relação a comportamentos específicos, considerados pecaminosos, as igrejas evangélicas brasileiras não conseguem se diferenciar significativamente do ethos nacional.
Ethos , de maneira geral, os traços característicos de um grupo, do ponto de vista social e cultural, que o diferencia de outros. Seria assim, um valor de identidade social.
Notamos claramente que o patriarcalismo, personalismo, familismo, privatismo e messianismo, marcam o modo se ser da maioria das igrejas evangélicas protestantes brasileiras, essas marcas dificultam o desenvolvimento ético e teológico nas nossas igrejas.
O paradoxo pregado de “temos que ser diferentes” vem num pacote conservador da moralidade tão rígido social e políticamente, que não nos permite fazer diferença nenhuma além, alias questionável, do testemunho pessoal.
As idéias tratadas neste texto são apenas três aspectos para termos uma ética evangélica relevante e contemporânea, não moderna.
Note que as relações sociais entre os evangélicos têm mudado. Durante a minha infância, década de 70, não era comum achar outro crente na mesma escola e mais difícil ainda na mesma sala de aula. Isso para não dizer que nossa significância no quadro político e cultural do país era irrelevante.
Nossas igrejas eram caracterizadas, no ethos evangélicos, por uma série de negações: não fumar, não beber, não adulterar, não ir ao cinema, não gostar de carnaval, não divorciar e muitos outros “nãos”. Também éramos reconhecidos por nosso “testemunho pessoal” como exemplo de honestidade, integridade, esforço profissional, confiáveis, tudo relacionado a uma ética individual de cumprimento de deveres.
A ética praticada era baseada em valores e comportamentos de missionários norte-americanos, típicos de classe média patriarcalista, sem expressão na vida política e cultural do país.
Isso mudou, o número de evangélicos é enorme, de acordo com as estatísticas quase 20% dos brasileiros, outro dia, numa obra de uma grande empresa extratora de petróleo brasileira que participei, estávamos reunidos, oito pessoas, na área de vivência na hora do almoço e não só éramos quase todos evangélicos como a maioria era pastor.
Com o crescimento de diversas e novas igrejas a ética evangélica continua baseada em questões de conduta e comportamento, a diferença real é que nossa consciência social e política nasceu e está em franco crescimento.
Ao mesmo tempo as demonstrações e o reconhecimento do velho “testemunho pessoal” está cada vez mais relaxado, a adaptação aos valores individualistas de consumo e indiferença, corrupção, desonestidade, escândalos: sexuais, financeiros e morais, são muito comuns.
O problema ficou tão grande que quando se fala de evangélico estamos nos referindo a que? Talvez a frase “eu não falo mais que sou evangélico digo que sou cristão” fique cada vez mais usada.
As obras sociais (escolas, hospitais, creches, asilos, orfanatos) da igreja evangélica, que sempre foram praticadas desde sua chegada ao Brasil, não eram parte da expressão da sua ética, somente com início significativo da atuação das ONGs com ênfase na necessidade de uma ética social e política, desenvolve-se o aspecto social, a consciência e a prática do bem ao próximo, bem como no aspecto político a representatividade democrática.
Esses novos campos nos desafiam a propor uma teologia cristã e não ideologia, pois a formação de códigos de conduta podem gerar, novamente, condenações moralistas.
Um caminho viável para a ética evangélica, teologicamente, passa pelo relacionamento teologia, espiritualidade e missão, pela liberdade proposta por Paulo na carta aos Gálatas.
Jesus nos liberta da escravidão e nos dá espaço para, na condição humana, agirmos como colaboradores do Espírito na ação libertadora. Está ação baseada na fé, e fé que Jesus é o libertador, alias, libertador não somente do nosso gueto mas, de toda humanidade.
A ética nos compele a tomar decisões e é mediante ao pensamento teológico que uma comunidade cristã define as razões e motivos para tomar decisões e agir. As razões cristãs são baseadas em amor, sem defesa de interesses ou grupos, com vistas a uma sociedade que se construa e viva os valores do reino de Deus, como na escatologia cristã do “Já” e o “Ainda não.”
Finalmente a construção de uma ética que forme pessoas melhores e sociedades melhores, caracterizadas pelo amor, liberdade e comunhão com Deus.
3 comentários:
Excelente!
ILY aways...
O evangélico é um cidadão completamente novo, inclassificável e vulnerável. Só nos salvaguardamos se sabemos disso. O nosso viver passa por todos os valores do mundo, e é difícil não ser influenciado por eles, porém não é raro termos que nos defender das idéias que são plenamente aceitas nos variados guetos, mesmo as que são aceitas em muitos deles. Quanto mais temos consciência da nossa subjetividade, mais somos próximos do que queremos ser.
Opss fui eu que comentei mas como estasva com a conta da mocidade....
abraço
Gessé
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